top of page

Triodion: o Falso e o Verdadeiro Carnaval

  • Adam Delaris
  • 26 de fev.
  • 9 min de leitura

Estamos em um dos períodos mais importantes da Igreja: a Quaresma; e, enquanto nos preparamos espiritualmente para a chegada desse tempo importante, o secularismo mundano se prepara para os excessos, fazendo uma passagem para ações desregradas. O falso Carnaval que chega é regido pela luxúria, vaidade e outros vícios. Não há subjetividade quando entramos nesse assunto, pois, em nosso país, a adulteração de uma festa cristã tornou-se um palco para o mundano, sendo um palácio demoníaco. A palavra Carnaval vem do latim «carnis levare», que significa “retirar a carne”, e aí entramos em uma das principais objeções do povo inclinado ao secular, que afirma: ora, o Carnaval sempre foi uma festividade cristã, por que não comemorar?


De fato, o Carnaval nasceu no catolicismo, por volta do século X, mais conhecido em inglês como Shrovetide, que se assemelha ao período pré-lenteno. Era uma preparação litúrgica para a Quaresma, marcada pela confissão e pelo consumo de alimentos proibidos pela Santa Igreja durante o tempo quaresmal, como carne, ovos e laticínios — daí provém o termo em latim: retirar a carne. Jamais foi uma festa pagã com costumes desregrados e liberais; pelo contrário, assemelha-se às festas católicas mexicanas atuais, com extenso rigor doutrinal e amor à Igreja, algo que se distingue, e muito, do que vivemos atualmente. Uma prática de folia com devoção pré-quaresmal, e também um tempo em que a Igreja combatia os excessos e fugas do que era proposto.


Veremos isso com São Filipe Néri, que combateu arduamente as ações que corrompiam a beleza carnavalesca da época, uma festa à qual eram concedidas indulgências plenárias e exposição ao Santíssimo Sacramento. De fato, mostrava-se sui generis, não sendo possível utilizar aquela objeção que parte de um pressuposto falso e de um salto lógico: “é uma festa de origem cristã, logo, podemos fazer”.


"[...] antes de 1550, esta, ou alguma exposição análoga, havia sido estabelecida por São Filipe Néri para a Confraria da Trindade dos Pellegrinos em Roma; enquanto Santo Inácio de Loyola, aproximadamente na mesma época, parece ter incentivado bastante a prática de expor o Santíssimo Sacramento durante o carnaval, como ato de expiação pelos pecados cometidos naquela época"

Qualquer excesso é errado, e não podemos ser coniventes com o pecado. Veja a citação de Hurrell Froude em um dos livros de São John Henry Newman:


“[...] ‘Essas coisas talvez sejam idolatria; não consigo me decidir a respeito; mas, a meu ver, é o Carnaval que representa a verdadeira idolatria prática, como está escrito: “o povo sentou-se para comer e beber, e levantou-se para se divertir”.’ E diz São John Henry Newman: [...] O Carnaval, observo de passagem, é, na verdade, um desses excessos aos quais os católicos religiosos sempre se opuseram por pelo menos três séculos, como vemos na vida de São Filipe, para não falar dos dias atuais; mas isso não sabíamos naquela época.”

A Igreja, mesmo quando a festividade era plenamente cristã, mostrava-se rigorosa contra os abusos, tendo, no século XVI, instituído a oração das 40 Horas para levar o povo a expiar seus pecados. Onde vemos isso atualmente? Não devemos buscar a felicidade do mundo, não devemos deixar os prazeres corroerem a santidade; nosso santo Deus jamais prometeu ambas as coisas, tanto a felicidade terrena quanto a devassidão.


Uma distinção é necessária: estar presente em um local desordenado e contrário à fé não o coloca em pecado instantaneamente. Um exemplo é se você estiver lá para evangelizar; agora, estando no meio, deve refrear a impulsividade e atentar para a cooperação formal e material. A cooperação formal é quando, de fato, se está dentro daquele âmbito não apenas porque se quer praticar ações que corroboram o que está acontecendo ali, mas porque quer que aquilo aconteça e permaneça assim com a aprovação da maldade. Um exemplo é o homem que não apenas utiliza substâncias ilícitas em um local, mas as leva e as distribui, pois sua cooperação mantém a operação das ações, tornando-a ilícita e imoral. Diferente é a cooperação material, que ocorre quando o sujeito, estando presente em um ambiente propício à maldade, acaba por se envolver sem aprovação moral do mal cometido. Enquanto a cooperação formal necessita de consentimento da ação, a cooperação material depende de proporcionalidade para julgamento, já que a cooperação formal é plenamente ilícita.


"A cooperação formal no pecado alheio é toda cooperação que, por seu propósito interno ou significado (finis operis) ou por intenção deliberada (finis operantis), é caracterizada como cumplicidade no pecado alheio. Isso significa que o cooperador formal se coloca diretamente a serviço do mal. Por sua própria intenção ou aprovação interior do ato pecaminoso principal, ou por uma cooperação que, por sua natureza, é aprovação da ação, ele formalmente torna o ato seu próprio"

Você não peca por estar em um bloco de Carnaval, mas se sujeita ao pecado ao estar nele e, dependendo de suas ações, acabará no lamaçal, da mesma forma por ação explícita/implícita. A pedra de tropeço, «skándalon», está em suas mãos e parte da própria ação, de acordo com o que o cerca e com o que se passa em sua mente. O escândalo objetivo parte da natureza da ação própria, escândalo objetivo ocorre quando a ação aplicada tem a capacidade de induzir o próximo ao erro moral e espiritual, sem necessidade de consentimento com o mal e de vontade quanto à decorrência da ação a outrem; e há muito disso em festividades inadequadas ao católico. Promover a imoralidade é um escândalo objetivo. O escândalo subjetivo é o escândalo próprio, quando uma ação exterior causa receio de que aquilo seja pecado, o que pode cair no escrúpulo — sendo este um fator — embora possa haver ações lícitas em que o observador teme por si e pelo outro sem necessidade. Santo Tomás de Aquino explica o escândalo de forma inteligível na citação seguinte:


"Escândalo, em sua forma mais básica, é um ato pelo qual uma pessoa é ocasião do pecado de outra por conselho, indução ou exemplo."


O que foi discutido ocorre rotineiramente em blocos e festividades particulares ou públicas do Carnaval.


«Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm» (1Cor 6,12).


As consequências do pecado são graves; devemos nos manter preparados para o tempo quaresmal, rezando pelas almas daqueles que estão no expurgo da santidade, pois aquele que habita na festividade pagã expulsa de si a santidade e à mercê de Satanás está. Há certa bestialidade: tornamo-nos primitivos, bárbaros; é, de fato, um ritual que lembra preparações nórdicas. Como há cristãos com coragem de partir em defesa disso? Muito vale a mansidão e a obediência de permanecer em casa do que se entregar, tanto em corpo quanto em alma, a Satanás nas bestialidades do mundo.


Há um salto histórico ao comparar ou até justificar o Carnaval brasileiro com o Carnaval essencialmente católico; são frutos distintos, já que o Carnaval que hoje conhecemos é cultural brasileiro e sincretista, não estando de acordo com a fé católica. Há diversos retalhos nessa festividade atual que, como apontado anteriormente, já vinham sendo condenados quando os abusos ainda eram em baixa escala; quem dirá uma festividade completa com base em múltiplos pecados. Surge, então, uma indagação comum:


“Se a festividade é pecado, por que a Igreja não a condena de uma vez?”


Entretanto, não é tão simples. Como afirmo, o Carnaval brasileiro é algo cultural do país, não estabelecido em fé própria, mas parte de uma evolução longínqua e de uma tradição nacional. A Igreja não costuma impor condenação a tradições regionais ou nacionais, mas, obviamente, já se opôs a práticas que constituem a festividade, como a nudez explícita, a bebedeira, os abusos, entre outros. Embora não sendo — atualmente — parte da herança católica, um dia o evento já foi lembrado sob tais olhos; infelizmente, não se pode mais contemplá-lo assim, já que o feio não se contempla, mas se desvia o olhar para o que passou. O santo Papa João Paulo II, enquanto esteve em visita ao Brasil, falou contra as bebedeiras, as drogas e, de maneira implícita, contra sua aplicação no Carnaval.


É de suma importância também recordar a condenação explícita às danças exóticas, à imodéstia e às roupas indecentes pelo santo Padre Bento XV, por meio da encíclica Sacra Propediem (1921), o que também se aplica a esse contexto:


“Sob esse ponto de vista não se pode deplorar suficientemente a cegueira de tantas mulheres de todas as idades e condições; feitas tolas pelo desejo de agradar, não veem em que grau a indecência de suas vestes escandaliza todo homem honesto e ofende a Deus. A maioria delas antes teria se envergonhado dessas toilettes como de grave falta contra a modéstia cristã; agora não lhes basta exporem-se nas vias públicas; não temem atravessar o limiar das igrejas, assistir ao Santo Sacrifício da Missa e até levar à Mesma Mesa Eucarística, onde se vai receber o Autor celestial da pureza, o alimento sedutor de paixões vergonhosas. E não falamos daquelas danças exóticas e bárbaras recentemente importadas para os círculos da moda, uma mais chocante que a outra; não se pode imaginar nada mais adequado para banir todos os restos de modéstia.”

Também há motivos sociais e políticos para não aderir ao costume de colaborar com a festividade, como os de segurança, pois há muita pedofilia, drogas, abusos etc. De acordo com o Governo Federal, em 2024 houve um levantamento de 20% na violência sexual contra menores no período carnavalesco, além de outros crimes, como assaltos. Nota-se também perigos espirituais, visto que membros da comitiva do samba e do desfile do Carnaval afirmam que o próprio samba está diretamente ligado às religiões de matriz africana, o que se coloca em contraposição à fé católica, sendo irregular e condenável ao fiel participar desse meio. Milton Cunha afirmou: “escola de samba é macumba” — via Folha do Estado.


"Em certa ocasião, durante um Carnaval, ele e São Filipe Néri organizaram uma procissão com seu crucifixo; em seguida, vieram os frades capuchinhos ; por último, Félix conduzia Frei Lupo, um conhecido pregador capuchinho , por uma corda em volta do pescoço, para representar Nosso Senhor sendo levado ao julgamento por seus algozes. Chegando em meio à folia, a procissão parou e Frei Lupo pregou ao povo. O Carnaval, com seus vícios descarados, foi desmantelado naquele ano."

Se nem os homens santos de nossa Igreja estavam de acordo com as más práticas de tal ocasião, por que deveríamos fazer o contrário? A autoridade aqui provém da má causa, dos frutos ruins em contraposição aos frutos bons. Enquanto a Quaresma se aproxima, o correto é preparar-se física e espiritualmente para a adesão às práticas próprias do tempo litúrgico, como o jejum. Já as práticas carnavalescas estão em oposição direta ao que é proposto pela Quaresma; assim, ambos não se misturam em seus sentidos e propósitos. As propagandas atuais atopetam a mente de viés que faz o fiel cegar-se diante das más ações presentes na festividade e, assim, julgar por juízo pessoal que está de acordo em participar dela.


Vejamos a ação desses dois grandes santos e adotemo-la como influência permanente; busquemos romper com a malícia, não nos render a ela. Não deixemos que os males consumam a civilização, ainda que por tempo limitado; não há tempo algum favorável ao mal, desde a eternidade ele está condenado, e não será diferente agora. Contemos com a intercessão de São Filipe Néri, Santo Inácio de Loyola e São Félix nestes tempos brutos, para que, assim, a vontade divina tome os corações dos perdidos.



REFERÊNCIAS


HERBЕРMANN, Charles G. (ed.). The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church. Vol. 13. New York: The Encyclopedia Press, 1913, p. 763. Art. “Shrovetide”.


NEWMAN, John Henry. Apologia Pro Vita Sua: Being a History of his Religious Opinions. London; New York: Longmans, Green, and Co., 1890 (edição civil pública). Cap. 2 (“True Mode of Meeting Mr. Kingsley”), p. 87-90. Texto acessado via Project Gutenberg e Newman Reader.


MERSHMAN, Francis. Diario Romano. In: HERBERMANN, Charles G. et al. (eds.) The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church. Volume 4. New York: Robert Appleton Company, 1913. p. 763-764.


CHUPUNGCO, Anscar J., org. Handbook for Liturgical Studies: Liturgical Time and Space. Collegeville, MN: Liturgical Press, 2000. Vol. V, p. 176-177.


MERSHMAN, Francis. “Forty Hours’ Devotion.” In: HERBERMANN, Charles G. et al. (eds.). The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church. Volume 6. New York: Robert Appleton Company, 1913, p. 152.


HESS, Lawrence. St. Felix of Cantalice. In: HERBERMANN, Charles G. et al. (eds.). The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church. Vol. 6. New York: Robert Appleton Company, 1913, p. 55.


HÄRING, Bernard. Free and Faithful in Christ: Moral Theology for Priests and Laity, vol. 2. Middlegreen, England: St. Paul Publications, 1979, pp. 479–480 — conforme citado em Ezra Sullivan, O.P., Nova et Vetera, Vol. 19, No. 4, 2021


AQUINO, São Tomás de. Summa Theologiae (ou Suma Teológica), Parte Secunda da Secunda (Secunda Secundae), Questão 43, Artigo 1: “De escândalo”. In: Summa Theologiae. Tradução inglesa.


JOÃO PAULO II. Mensagem pela abertura da Campanha da Fraternidade no Brasil 2001 (Life Yes, Drugs No!). 6 jan. 2001. In: Vatican.va — Holy See.


BENTO XV. Sacra Propediem: Encíclica ao Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários em Paz e Comunhão com a Sé Apostólica sobre a Tercira Ordem de São Francisco. 6 jan. 1921, n. 19.

Comentários


bottom of page